Walter Benjamin não escreveu sobre arte como quem descreve objetos em uma vitrine. Para ele, a arte sempre esteve ligada à forma como vivemos o mundo, como nos situamos nele, como nos reconhecemos socialmente. Falar de arte é falar de experiência, e mais ainda: é falar das condições materiais e técnicas que moldam essa experiência. É nesse espírito que se insere sua análise da reprodutibilidade técnica. O impacto da fotografia, do cinema, das formas modernas de reprodução não se limita a questões estéticas, é um abalo nas estruturas de percepção, uma mutação nos modos de ver, sentir e pensar.
O conceito de aura
A palavra-chave aqui é "aura". O que Benjamin chama de aura é aquela sensação de unicidade, de presença irrepetível que certas obras de arte carregam. É o "aqui e agora" da obra, sua inserção num contexto ritualístico, sua autoridade cultual. É a experiência do aqui e agora irrepetível, do encontro com algo que carrega consigo a marca de sua origem única e sua história particular. Ver um quadro numa igreja, ouvir uma música numa cerimônia religiosa, estar diante de um objeto cuja existência está carregada de tradição, tudo isso envolve aura. A aura é, portanto, a espessura histórica, sensorial e simbólica da obra de arte.
Essa pintura religiosa em seu contexto original (uma capela, com valor de culto) representa o conceito de aura benjaminiana, o "aqui e agora" da obra ritualizada. Reproduzida em livros e sites, perde esse vínculo com sua origem sagrada.
A reprodutibilidade não é um fenômeno novo, a arte sempre pôde ser reproduzida. O que muda com a técnica moderna é a própria natureza dessa reprodução. A fotografia e o cinema não são apenas cópias de originais: são formas artísticas que já nascem destinadas à reprodução. Não faz sentido falar do "original" de um filme ou de uma fotografia, sua natureza é ser multiplicável.
Mas essa aura, segundo Benjamin, está em declínio. A técnica moderna com suas câmeras, gravadores, cópias, ampliações, montagens, destrói a singularidade da obra. Ela a retira de seu tempo e espaço próprios, esvazia sua aura e a insere num novo circuito: o da circulação massiva, da repetição, do consumo. Uma pintura reproduzida pode ser vista simultaneamente em lugares distintos. Um filme é visto em diferentes línguas, em várias telas, por multidões dispersas. O valor de culto cede espaço ao valor de exposição. A contemplação ritualística é substituída pela recepção na distração.
Isso significa o fim da arte? Não para Benjamin. Ao contrário, ele vê aí uma oportunidade histórica. O declínio da aura é também o fim de um regime aristocrático da arte. Benjamin vai além da mera constatação dessa perda da aura. Para ele, esse processo tem um potencial emancipatório. A arte aurática, em sua unicidade e distância, estava ligada a funções rituais e cultuais. Sua autoridade derivava de sua singularidade, de sua inserção em uma tradição. Com a reprodutibilidade técnica, a arte se liberta dessas funções tradicionais e pode assumir um novo papel político.
Esse potencial político se manifesta de várias formas. Em primeiro lugar, a reprodução técnica democratiza o acesso à arte, permitindo que as massas tenham contato com obras antes restritas a uma elite. Mais importante ainda, ela possibilita novas formas de percepção e experiência que correspondem às transformações da vida moderna.
O cinema, para ele, é o exemplo mais radical: rompe com a unidade, fragmenta, remonta, desestabiliza o olhar. É arte de massas, por sua forma de circulação, mas não necessariamente massificada, em conteúdo ou função. Depende de como é feito e de como é recebido. O cinema não apenas reproduz a realidade, mas a revela de maneiras antes impossíveis. Através da montagem, do close-up, da câmera lenta, ele cria um "inconsciente ótico" que expande nossa percepção habitual. O espectador de cinema é como um cirurgião que penetra na realidade, em contraste com o pintor que mantém uma distância contemplativa. Se usada politicamente, essa arte pode se tornar a vanguarda da percepção crítica.
Mas essa nova percepção não é apenas uma questão técnica. Benjamin a relaciona com mudanças fundamentais na estrutura da experiência moderna. A fragmentação da vida urbana, o choque constante das multidões, a aceleração do tempo, tudo isso encontra expressão nas novas formas artísticas. O cinema, com sua sucessão rápida de imagens, corresponde à experiência do habitante da cidade moderna.
A questão da autenticidade também ganha novos contornos. Se a arte tradicional baseava sua autenticidade na unicidade do original, as novas formas artísticas encontram outros critérios de valor. Uma fotografia não é "autêntica" por ser única, mas por capturar um momento significativo, por revelar aspectos da realidade que escapam ao olho nu.
É nesse ponto que Benjamin afia seu pensamento político. A técnica pode ser libertadora, mas também pode ser perversa. A mesma câmera que revela contradições sociais pode ser usada para estetizar a violência. A reprodução técnica pode servir à emancipação ou à dominação. O cinema tanto pode gerar consciência quanto ser ferramenta de propaganda. Para Benjamin, o fascismo é a forma extrema dessa distorção: nele, não se trata de politizar a arte, mas de estetizar a política. A guerra torna-se um espetáculo. O horror é encenado. A morte vira coreografia. Eis o perigo da técnica sem crítica.
Benjamin nos leva a pensar a arte como um território de embates, onde as transformações técnicas redefinem não apenas os modos de criação, mas também as formas de percepção e os sentidos que atribuímos ao mundo. A reprodutibilidade técnica não representa apenas um desafio à tradição artística, ela nos obriga a reconfigurar nosso olhar, a perceber a arte não como algo dado, mas como uma experiência em constante mutação, atravessada pelas forças que moldam a sensibilidade moderna.
Na época de Benjamin, o fascismo representava o perigo maior. Hoje, enfrentamos novas formas de dominação técnica e simbólica. Mas a pergunta que Benjamin fazia continua ecoando: quem controla os meios de reprodução? E para quê?
Talvez a tarefa da arte hoje, como Benjamin já vislumbrava no cinema e na fotografia, não seja restaurar a aura em declínio, mas explorar as possibilidades da reprodução técnica a serviço da emancipação. Não para criar um novo culto, mas para desenvolver uma nova práxis. Não a arte para ser contemplada a distância, mas a arte que penetra no cotidiano, que desarranja os automatismos perceptivos, que desperta o olhar adormecido.
Porque, no fim das contas, o que importa não é mais tanto a unicidade da obra, mas a singularidade da experiência que ela proporciona. E essa experiência, longe de ser meramente individual, é socialmente partilhada e politicamente determinada.
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