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A arte no mundo da vida

Como a experiência estética se relaciona com as diferentes esferas da racionalidade moderna? Qual o papel da arte na formação do espaço público? E, ainda, como a arte pode contribuir para o projeto inacabado da modernidade?

a arte na vida

7 minutos

Jürgen Habermas trata da questão da arte de modo integrado à sua teoria da modernidade como diferenciação de esferas de racionalidade. A modernidade caracteriza-se pela autonomização da ciência, da moral e da arte. Por isso, a experiência estética precisa ser compreendida em sua especificidade. Mas também deve ser entendida em sua relação com as outras formas de racionalidade. Esta é sua premissa fundamental.

Habermas busca compreender como a arte pode contribuir positivamente para a racionalização do “mundo da vida”. Este conceito fundamental refere-se ao horizonte compartilhado de saberes, práticas e significados que tornam possível nossa comunicação cotidiana. O mundo da vida constitui o pano de fundo intersubjetivo de nossas interações comunicativas. É nele que a arte pode exercer seu potencial transformador e emancipatório, para além da mera negatividade.

A experiência estética constitui uma forma específica de comunicação. Ela pode enriquecer nossa compreensão intersubjetiva através do que Habermas denomina "razão comunicativa". Essa consideração permite a Habermas superar a visão instrumentalista da racionalidade, criticada pelos membros anteriores da Escola de Frankfurt. Com isso, abre-se espaço para uma compreensão mais ampla das potencialidades emancipatórias da modernidade, inclusive no campo estético.

O ponto crucial é que a arte não deve permanecer isolada em sua esfera autônoma. A autonomização da esfera estética foi um ganho histórico fundamental. Ela permitiu o desenvolvimento de formas específicas de racionalidade artística. No entanto, o desafio atual é reintegrar as experiências estéticas ao mundo da vida. Isso deve ser feito sem sacrificar sua especificidade.

"Surrounded Islands" (1983), de Christo e Jeanne-Claude

O uso comunicativo das experiências estéticas não implica um retorno a formas pré-modernas de arte vinculadas à religião ou à moral. Ao contrário: é justamente com base em sua autonomia que a arte se torna capaz de estabelecer novos diálogos com outras esferas da experiência. Ao desenvolver uma linguagem própria e critérios específicos de validade, a arte moderna adquire a capacidade de revelar dimensões da experiência que escapam tanto à racionalidade científica quanto à moral. Esse é o seu potencial mediador singular.

Mas como pensar essa contribuição específica da arte? Para Habermas, a experiência estética tem um potencial único de renovação da percepção e da comunicação. Ao nos apresentar formas novas de ver e sentir o mundo, a arte expande nosso horizonte comunicativo. Não apenas expressa experiências subjetivas. Cria possibilidades de entendimento intersubjetivo que podem enriquecer o mundo da vida cada vez mais ameaçado pela "colonização" proveniente dos sistemas econômico e administrativo.

Esta "colonização do mundo da vida" é um processo pelo qual a racionalidade instrumental própria dos sistemas econômico e administrativo invade esferas que deveriam ser regidas primariamente pela racionalidade comunicativa. A arte, ao resistir a essa colonização e ao mesmo tempo estabelecer pontes entre diferentes esferas de valor, desempenha um papel crucial na modernidade.

“Torre de Babel” (2001), de Cildo Meireles

Nessa perspectiva, contra a tendência a ver a experiência estética como puramente subjetiva ou irracional, Habermas insiste em seu caráter discursivo. As obras de arte levantam pretensões de validade que podem ser discutidas e avaliadas racionalmente, ainda que não aspirem ao mesmo tipo de consenso encontrado nas esferas cognitiva e normativa.

A crítica de arte, nesse sentido, se configura como uma forma de argumentação racional que busca explicitar e interpretar as pretensões de validade levantadas pelas obras. O crítico atua como mediador entre a obra e o público. Ele contribui não necessariamente para um consenso definitivo sobre o valor estético, mas para um processo interpretativo que enriquece nossa compreensão da obra e expande nossos horizontes de sentido. Habermas reconhece o caráter mais aberto e interpretativo das pretensões de validade estéticas.

Essa racionalidade estética tem características próprias. Não opera através de conceitos determinados, como a ciência, nem através de normas universais, como a moral. A arte desenvolve uma forma específica de racionalidade que integra sensibilidade e entendimento, particular e universal, em uma síntese sempre renovada e nunca definitiva.

"One and Three Chairs" (1965), de Joseph Kosuth

As experiências estéticas, ao serem compartilhadas e discutidas, contribuem para a formação de uma esfera pública cultural que enriquece o debate democrático. A arte não apenas reflete a sociedade. Participa ativamente da construção de nossos horizontes de sentido compartilhados, potencialmente fortalecendo a resistência contra a colonização sistêmica do mundo da vida.

Essa concepção tem implicações importantes para pensar a relação entre arte e política. A arte não precisa ser explicitamente política para ter relevância social. Sua contribuição mais significativa está em sua capacidade de enriquecer nossa compreensão intersubjetiva e expandir nossas possibilidades de comunicação, servindo como mediadora entre as diferentes esferas de racionalidade que a modernidade diferenciou.

Mas como pensar essa função comunicativa da arte em um um contexto de fragmentação cultural e privatização da experiência? Como manter o potencial emancipatório da arte quando ela parece cada vez mais submetida à lógica do mercado e da administração burocrática? Essas questões, que Habermas reconhece como desafios sérios derivados da colonização do mundo da vida, não invalidam seu projeto de uma estética comunicativa. Elas o tornam ainda mais urgente.

Para Habermas, o caminho estaria em fortalecer os espaços de discussão pública sobre arte, em desenvolver formas de mediação que permitam um diálogo produtivo entre diferentes experiências estéticas. A arte pode contribuir para o projeto emancipatório da modernidade precisamente ao criar pontes entre diferentes formas de racionalidade e experiência.

A filosofia da arte de Habermas oferece uma perspectiva que supera tanto o pessimismo cultural da primeira geração da Escola de Frankfurt quanto as tendências relativistas do pensamento pós-moderno. A arte emerge como uma forma específica de racionalidade comunicativa, capaz de revelar aspectos da experiência que as outras esferas da razão não alcançam. Ela cria pontes de entendimento que atravessam diferenças sem eliminá-las. Não seria precisamente essa capacidade mediadora que faz da arte uma força vital não apenas para a democracia, mas para o próprio projeto inacabado da modernidade e sua promessa de emancipação?