Há algo maravilhoso em compreender a arte do ponto de vista de um restaurador. Aquela sensação mágica de entrar em museus, igrejas ou grandes construções e conhecer em detalhes a delicadeza com que foram criados.
Quantas vezes você reparou em como as luzes estão estrategicamente posicionadas em uma sala de exposição para ver um quadro? Sabe por que algumas salas são mais escuras? Provavelmente porque algum elemento exposto é sensível à radiação da luz. E o que dizer sobre as molduras das obras? Levantar hipóteses sobre o porquê de uma moldura não ser original – talvez por roubo, transferência, gosto estilístico de outra época, perda ou ataque de cupins – são questionamentos que inundam a mente de um restaurador.
Para nós, é fascinante saber os nomes das estruturas que compõem uma igreja e ser aquela pessoa com quem uma visita a museus sempre surpreende, trazendo uma história ou detalhe que talvez pareça irrelevante, mas que na verdade é vital.
Saber que Caravaggio pintava algumas mulheres com tecidos amarelos, hora como um elemento técnico (para iluminar e destacar a composição), quanto simbólico como um código secreto para homenagear as prostitutas que posavam para ele por longas horas.
Ou compreender que a iconografia de cães deitados ou em poses relaxadas muitas vezes simbolizavam infidelidade ou traição, contrastando com cães em poses atentas, que representavam lealdade.
E aqueles craquelados maravilhosos na camada pictórica dos quadros a óleo? Resultado das flutuações de umidade e temperatura, que estressam a pintura, incapaz de acompanhar essas mudanças.
O traço grosso e intencional de Van Gogh. O pincel com cerdas abertas com que Monet pintava. A complexidade de pintar o azul lápis-lazúli da "Anunciação" de Fra Angelico, uma das obras com melhor técnica de têmpera a ovo da história da arte, restaurada no próprio Museu do Prado.
Poderíamos encher um blog inteiro com milhares de detalhes que o mundo da arte nos oferece todos os dias, se formos sensíveis ao observar. Sentimos cada centímetro da arte dentro da nossa pele e curiosamente a observamos de um ângulo clínico, recalculando todas as possíveis razões pelas quais hoje, no presente, vemos as “rugas” da arte, definindo o motivo dessas rugas, o porquê de sua "doença", desde quando começou, até quanto pode durar e quais efeitos podem resultar das nossas decisões.
“Percebemos o imperceptível.”
Temos a coragem de executar intervenções sob a teoria da química e da física, ética, burocrática e social, que podem alterar para sempre centenas de anos da história da arte. O restaurador não é apenas um profissional qualificado; ele é um corajoso, um intelectual, um artista disfarçado, um químico, um físico, um biólogo, um pequeno antropólogo e um mago que brinca com a linha do tempo: passado, presente e futuro.
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